Uma redação pode ter ideias pertinentes e ainda parecer confusa quando as frases não deixam claro como uma afirmação se relaciona à seguinte. Os conectivos argumentativos ajudam a explicitar essas relações: apresentam uma tese, acrescentam razões, contrapõem pontos de vista e encaminham conclusões. A escolha depende do sentido pretendido, não do grau de formalidade da expressão.
Para usá-los bem, identifique primeiro a relação lógica entre as ideias e só então escolha a expressão. Esse cuidado evita, por exemplo, usar “portanto” quando o trecho seguinte apenas acrescenta uma informação, ou “contudo” para encerrar um raciocínio.
Ficha rápida
Função: sinalizar relações entre partes do texto.
Relações comuns: adição, oposição, causa, explicação, comparação e conclusão.
Uso: entre orações, períodos ou parágrafos.
Critério de escolha: sentido da conexão entre as ideias.
Revisão: confira se o conectivo corresponde ao que o trecho realmente afirma.
O que são conectivos argumentativos e como contribuem para a coesão
Conectivos argumentativos são palavras ou expressões que estabelecem relações semânticas entre segmentos do texto e orientam a leitura do raciocínio. Em uma redação, eles mostram se uma ideia acrescenta informação, apresenta uma ressalva, explica uma afirmação ou decorre de um argumento anterior. O leitor acompanha melhor a tese quando essa relação está expressa com precisão.
Na gramática, conjunções e locuções conjuntivas são exemplos de recursos de conexão, mas nem todo conectivo pertence à mesma classe gramatical. Advérbios e expressões como “por outro lado” também podem organizar o discurso. Evanildo Bechara, em Moderna Gramática Portuguesa, e Domingos Paschoal Cegalla, em Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, ajudam a distinguir as classes e os usos; na redação, importa observar tanto a forma quanto o sentido produzido no contexto.
O conectivo torna visível a relação lógica que sustenta o argumento.
Esse recurso melhora a coesão, isto é, a ligação entre as partes do texto. Ainda assim, uma frase pode ser coesa e defender uma ideia frágil: o conectivo organiza o raciocínio, mas não substitui evidências nem corrige contradições.
Na página do Enem no Inep, o exame disponibiliza orientações oficiais ao participante, incluindo a cartilha de redação. Ela é uma referência útil para entender como a organização textual participa da avaliação, embora a escolha de cada expressão dependa do contexto da frase.
Conectivos para introduzir o tema e apresentar argumentos
Na introdução, expressões como “nesse contexto”, “diante desse cenário” e “sob essa perspectiva” podem aproximar o tema da tese, desde que haja um contexto previamente apresentado. Elas não criam uma contextualização por conta própria. Para introduzir a posição defendida, verbos e construções como “defende-se que”, “é necessário considerar que” e “essa realidade evidencia” costumam ser mais claros que uma sucessão de fórmulas prontas.
Nos parágrafos de desenvolvimento, o início deve indicar a função do argumento. “Em primeiro lugar” anuncia um ponto inicial; “além disso” acrescenta outro; “por outro lado” apresenta uma perspectiva contrastante. Para conectivos para desenvolvimento 1 ou para desenvolvimento 2 e 3, escolha a expressão pelo papel daquele parágrafo, e não pelo número dele.
Um exemplo: “A falta de acesso à leitura limita a formação crítica. Por esse motivo, bibliotecas públicas precisam de investimento contínuo.” A segunda frase apresenta uma consequência do problema. Se a intenção for explicar por que o acesso é limitado, “isso ocorre porque” estabeleceria outra relação e exigiria uma causa.
Ao planejar uma sequência didática de produção textual, atividades de revisão podem ajudar a turma a testar essas relações em seus próprios parágrafos. Esse trabalho pode dialogar com propostas de projetos interdisciplinares que envolvem a turma, desde que a conexão com o tema da redação permaneça clara.
Ideias conectadas em sequência visual
Conectivos de adição, continuidade e sequência
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Conectivos de adição incluem “além disso”, “também”, “ainda” e “bem como”. Eles incorporam uma informação que se soma à anterior. “Além disso” costuma introduzir uma nova razão; “também” pode integrar uma oração sem abrir um novo bloco argumentativo: “A medida reduz o desperdício e também amplia o acesso ao serviço”.
Para dar continuidade, “nesse sentido” retoma uma ideia e desenvolve uma consequência ou um aspecto relacionado; “a partir disso” indica que o trecho seguinte parte do raciocínio anterior. Já os conectivos de sequência organizam etapas ou pontos: “primeiramente”, “em seguida”, “por fim” e “na etapa seguinte”. A sequência pode ser temporal ou argumentativa, então o contexto precisa deixar evidente qual delas está em jogo.
Adição: “Além disso, a iniciativa alcança bairros afastados.”
Continuidade: “Nesse sentido, ampliar o transporte facilita o acesso aos serviços.”
Sequência: “Primeiramente, identifica-se o problema; em seguida, avaliam-se as causas.”
Quando cada parágrafo começa com “além disso” ou “em primeiro lugar”, a organização fica mecânica. Às vezes, a continuidade já está clara pelo encadeamento das ideias; omitir o conectivo pode deixar a frase mais natural.
Conectivos de oposição, comparação, explicação e exemplificação
“Contudo”, “porém” e “no entanto” introduzem oposição ou ressalva. “Contudo” não é, por si só, um conectivo de conclusão: em “A proposta amplia o acesso; contudo, exige investimento”, a segunda oração restringe a primeira. Se o trecho final sintetiza razões e apresenta um resultado, expressões como “portanto” podem ser adequadas.
Comparar é aproximar ideias para destacar semelhanças ou diferenças. “Assim como” marca uma aproximação; “da mesma forma” indica correspondência; “ao contrário de” explicita oposição entre elementos. Já “enquanto” pode indicar simultaneidade ou contraste, conforme a frase: “Enquanto uma região concentra serviços, outra enfrenta escassez” expressa contraste, não apenas tempo.
Para explicar ou indicar causa, use “porque”, “uma vez que” ou “já que” quando o trecho seguinte apresentar a razão. “Isto é” e “ou seja” reformulam ou esclarecem uma ideia. Para exemplificar, “por exemplo” introduz um caso concreto, mas esse caso precisa sustentar o argumento, e não apenas repetir a afirmação em outras palavras.
Em “A política pode reduzir a evasão, por exemplo, ao oferecer transporte escolar”, o exemplo mostra um mecanismo possível. Se a intenção for explicar a razão de um resultado, “por exemplo” não serve: nesse caso, a relação pede uma expressão causal, como “porque”.
Uma expressão de oposição muda o rumo do argumento; uma de causa explica por que ele se sustenta.
Argumentos ligados à tese final
Conectivos para conclusão e retomada da tese
“Portanto”, “assim” e “desse modo” podem introduzir uma conclusão quando o trecho decorre do raciocínio anterior. “Diante disso” retoma uma situação ou um conjunto de argumentos e encaminha uma resposta, consequência ou proposta. A expressão não conclui automaticamente: em “Diante disso, é preciso ampliar o atendimento”, ela conduz a uma medida, mas a conclusão depende do restante do texto.
“Contudo” expressa ressalva ou contraste, inclusive no parágrafo final. Em “A medida é promissora; contudo, precisa de fiscalização”, a ideia final limita a avaliação, em vez de concluir por consequência. Na redação do Enem, a proposta de intervenção deve se relacionar ao problema discutido; um conectivo de fechamento não supre essa ligação.
Quando a conclusão retoma a tese, evite apenas repetir a introdução com “portanto”. Mostre o que os argumentos permitem afirmar. Se o último parágrafo acrescenta um dado novo, talvez ele pertença ao desenvolvimento, não ao fechamento.
O planejamento e a revisão de textos em sala podem se integrar a práticas de acompanhamento da aprendizagem, com atenção ao modo como o estudante sustenta e encadeia suas ideias.
Como escolher o conectivo certo e variar sem forçar a escrita
Use este critério: se o trecho seguinte soma um argumento, escolha adição; se restringe o anterior, oposição; se mostra a razão, causa ou explicação; se decorre dele, conclusão ou consequência. Essa checagem vale tanto para conectivos intraparágrafos, entre frases, quanto para conectivos interparágrafos, entre blocos de argumentação.
Expressão
Relação mais comum
Uso adequado
Confusão frequente
Além disso
Adição
Introduzir outro argumento ou informação
Usar quando a ideia seguinte contraria a anterior
Contudo
Oposição ou ressalva
Apresentar uma limitação ou contraste
Tratá-lo como sinônimo de “portanto”
Porque
Causa ou explicação
Apresentar a razão de uma afirmação
Usá-lo para introduzir uma consequência
Por exemplo
Exemplificação
Concretizar uma afirmação geral
Apresentar um caso que não comprova o ponto
Portanto
Conclusão ou consequência
Derivar um resultado do que foi argumentado
Usá-lo para apenas acrescentar informação
Diante disso
Retomada e encaminhamento
Partir do problema ou argumento para uma resposta
Supor que a expressão, sozinha, conclui o texto
Na revisão, leia primeiro as duas ideias sem o conectivo e nomeie a relação entre elas. Depois confira se a expressão escolhida preserva essa relação, se o referente de “isso” ou “diante disso” está claro e se a repetição é necessária. Se duas expressões parecem possíveis, prefira a que descreve a ligação com menos ambiguidade.
Erros que enfraquecem a coesão da redação
O erro mais comum é escolher o conectivo pela aparência formal. Isso acontece porque expressões como “destarte” ou “outrossim” podem soar acadêmicas, mas não corrigem uma relação lógica equivocada. Um vocabulário mais simples, como “além disso” ou “por isso”, costuma ser melhor quando exprime exatamente o que o argumento precisa.
Também enfraquece a redação repetir a mesma expressão no início de todo parágrafo. A causa costuma ser um planejamento baseado em fórmulas fixas, em vez da função de cada trecho. Para evitar esse padrão, varie a construção da frase, reorganize a ordem das informações ou retire a marcação quando a conexão já estiver evidente.
Por fim, atenção às expressões de retomada: “diante disso” precisa apontar para algo identificável, e “nesse sentido” deve retomar uma ideia compatível com o que vem depois. Uma revisão útil é sublinhar cada conectivo e escrever na margem a relação que ele estabelece. Se a relação não puder ser nomeada, a frase provavelmente pede outra ligação ou uma reformulação.
Para aplicar o critério, revise um parágrafo por vez: identifique a afirmação principal, marque a função de cada frase e só então ajuste os conectivos. A organização de atividades de planejamento e revisão também pode ajudar a transformar essa checagem em hábito de escrita.
Perguntas frequentes
“Diante disso” pode aparecer no meio do texto?
Sim. A expressão pode retomar um problema ou argumento em qualquer parte do texto e encaminhar uma consequência ou resposta. O ponto essencial é que o referente esteja claro.
“Outrossim” é sempre uma boa alternativa para “além disso”?
Não necessariamente. Os dois podem introduzir adição, mas “outrossim” tem um tom mais formal e pode destoar da voz do texto. A escolha deve considerar a fluidez e o registro da redação.
É errado começar um parágrafo com um conectivo?
Não. É adequado quando a expressão mostra a relação entre o parágrafo e o raciocínio anterior. O uso repetido e automático é que pode tornar a estrutura previsível.
“Enquanto” sempre indica comparação?
Não. Pode indicar simultaneidade, como em “enquanto a equipe trabalha, os dados são analisados”, ou contraste, como em “uma região avança, enquanto outra permanece sem atendimento”. O contexto define a leitura.
Posso usar “e” em uma redação dissertativa?
Sim. “E” é uma conjunção adequada para somar elementos, desde que a relação seja de adição. Substituí-la sempre por expressões mais longas não torna o texto mais preciso.
Um conectivo pode corrigir uma contradição entre argumentos?
Não. Ele pode sinalizar contraste ou concessão, mas não resolve uma incompatibilidade de ideias. Se os argumentos se contradizem sem que isso faça parte da análise, é preciso revisar o raciocínio e não apenas trocar a expressão.